Antes de refletir sobre o tema e buscar respostas sobre que mudanças a pandemia trouxe para o universo da beleza, vale fazer alguns questionamentos: o que é de fato beleza? Este conceito é relativo? O padrão é totalmente estabelecido ou reflexo natural de questões sociais e culturais?
Não há conclusões exatas, até porque a própria definição da palavra Beleza no dicionário, como sendo “o caráter do ser ou da coisa que desperta sentimento de êxtase, admiração ou prazer através dos sentidos” nos indica que o conceito está relacionado à percepção do observador. Ou seja: o que é belo para um pode não ser para outro. Tudo depende do que sentimos ao dedicarmos atenção plena para alguém ou alguma coisa.
E, ainda, quanto de nós presta atenção com total dedicação, frente a tantos estímulos externos ou motivos de distração aos quais somos expostos? Para se observar algo de forma verdadeira, há de sermos íntegros, inteiros e libertos de preconceitos, condicionamentos ou imposições sociais.
Com estes questionamentos despertos em nós, podemos então avançar no tema sobre as possíveis mudanças que a pandemia pode ter trazido para a área da beleza, tanto com relação a atitudes, quanto ao conceito em si.
É certo que muitos homens e mulheres já estão aderindo ao grisalho durante o período do isolamento, assim como também há mudanças em cortes de cabelo e barbas. Mas o que mudou afinal? E, ainda: são tais mudanças definitivas?
A juíza aposentada Evelyn Caliman Sampaio explica que a fase de isolamento em função da pandemia foi determinante para tomar a decisão de assumir os fios grisalhos. “O temor da contaminação me fez prestigiar apenas as soluções on-line; pintar os cabelos e as unhas não se encaixaram nesse limite que impus a mim mesma”. Mas ela salienta que mesmo antes da quarentena, já se questionava sobre certas imposições sociais, como o fato de pintar o cabelo para disfarçar a idade. “Sabe aquela história de que o homem grisalho é charmoso e que para mulher isto é símbolo de não vaidade, de descuido consigo mesma, de maltratada? Nunca entendi e, portanto, nunca concordei! Porque os símbolos do envelhecimento não podem ser bonitos? São oportunidades de gratidão e experiências positivas”! Satisfeita com o novo visual, ”agora as minhas ‘luzes’ são totalmente naturais! Me adoro”, ela acredita que esta fase está sendo uma oportunidade para se adotar uma nova forma de viver e que isto veio para ficar: “Penso que quanto mais naturalmente nos relacionarmos com nós mesmos, mais oportunidade teremos de influenciar, no melhor sentido, as pessoas a respeitarem suas verdades também”.

Outra adepta de se adotar a forma natural e atual dos fios do cabelo, a produtora de TV Iara Cunha, destaca a liberdade e a praticidade como exemplos das vantagens desta escolha. Se esta escolha será definitiva? “Definitivo é uma palavra muito definitiva”, brinca ela. “Prefiro dizer que estou feliz assim por hora. Meu cabelo está mais livre de químicas, gasto muito menos dinheiro com isso, não fico preocupada em ter que ir ao cabelereiro a cada 15 dias ou mesmo para fazer retoque. Antes eu tinha que programar os retoques dos cabelos brancos conforme a agenda de festas, encontros e até viagens. Isso não me preocupa mais! Mas amanhã posso ter vontade de mudar de novo. Por isso, não escolho a palavra definitiva”. A inspiração para assumir os cabelos brancos, aliás, é um exemplo do quanto sua mudança foi feita com base na vontade: “Foi assistindo ao documentário Branco & Prata que comecei a refletir mais sobre como estamos presas a padrões para satisfazer os outros e não a nós mesmas. Isso me incomodou muito. E decidi que era hora de construir uma consciência de aceitação de quem eu sou realmente. Afinal, a quem estamos querendo enganar?”


Psicanalista
Segundo a psicanalista Andréa Mattos, a conjuntura atual com o surgimento da Covid-19 forçou a todos a vivermos em nossas próprias “ilhas domésticas”, sem a habitual convivência no trabalho e vida social, onde há ambiente de competição e a comparação torna-se mais presente. “Apareceram, então, a desnecessidade de se esmerar nas vestimentas e de atender às exigências de rotinas de beleza estética, assim, exemplarmente entendidas por corte e tintura dos cabelos, manicure, pedicure, afeitar a barba, maquiagem, etc.” Ela ainda identifica que este não é um movimento ligado às questões diretas de autoestima, mas “conectado com circunstancial necessidade de reclusão, impedindo, assim, as situações de concorrência natural humana”.
Seja por motivos ligados ao empoderamento, questionamento de padrões estabelecidos ou por consequência natural da pouca convivência social, o fato é que este movimento de abertura a mudanças tem crescido e inspirado muita gente a sair do modo “piloto automático”, de sempre fazer as mesmas coisas ou do mesmo modo, para adotar uma postura mais flexível e com abertura ao que é novo para nós.
O publicitário Murilo Rodrigues, que deixou os cabelos crescerem recentemente – “como sabia que ficaria boa parte do tempo em casa, achei o momento oportuno para isso” – afirma que a quarentena trouxe uma oportunidade para reflexão. “Acredito que a pandemia me fez mudar, me deixou mais aberto a testar novas coisas, como deixar o cabelo crescer e a sair desse modo “automático” que eu estava”, conclui ele.

Mudanças, novas formas de ver e viver a vida, reflexões… Se elas serão definitivas ou não, só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: nunca a frase abaixo do pensador George Bernard Shaw fez tanto sentido…
“As pessoas veem as coisas como elas são e perguntam por quê? Eu vejo as coisas como elas poderiam ser e pergunto por que não?!”
